A favela venceu? O trabalhador na mira da reincidência de menores infratores

As motocicletas de baixa cilindrada — 125, 150 e 160 cc — tornaram-se ferramentas indispensáveis para milhares de trabalhadores brasileiros. Motoboys, entregadores e profissionais que dependem do transporte individual encontram nesses veículos economia, agilidade e, muitas vezes, a única forma de sustentar suas famílias. Não por acaso, essas motos hoje movimentam uma parte significativa da economia local e nacional.

Reconhecendo essa importância, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, sancionou recentemente uma lei que isenta do pagamento de IPVA as motocicletas de até 180 cilindradas. A medida busca aliviar o bolso de quem trabalha sobre duas rodas. No entanto, enquanto o Estado avança em incentivos, a criminalidade parece seguir no sentido oposto.

Nos últimos meses, a região de Jundiaí tem registrado uma sequência preocupante de furtos e roubos de motocicletas de baixa cilindrada. Casos que, infelizmente, se repetem e revelam um padrão: boa parte desses crimes é cometida por menores de idade, muitos deles reincidentes.

Um episódio recente escancarou essa realidade. Um morador do bairro Varjão, motoboy, teve sua motocicleta roubada por dois indivíduos na região do Cecap. O veículo era seu principal instrumento de trabalho e garantia o sustento da família, incluindo uma filha com necessidades especiais. Em um vídeo de desabafo que ganhou repercussão nas redes sociais, a vítima expôs não apenas a dor da perda material, mas o impacto direto em sua dignidade. A solidariedade veio de forma inesperada, quando um influenciador doou uma motocicleta zero quilômetro ao trabalhador. Ainda assim, o crime original segue sem resposta: a moto roubada não foi recuperada.

Levantamentos da própria redação, com base em matérias publicadas recentemente, apontam que a maioria das motos furtadas ou roubadas nessa faixa de cilindrada tem como autores adolescentes. Em um dos casos, um menor morador de Várzea Paulista foi apreendido três vezes em menos de um mês pelo mesmo tipo de crime, evidenciando a falência de um sistema que prende, solta e assiste à reincidência.

A legislação, especialmente nos casos de furto, classifica essas ocorrências como crimes de menor potencial ofensivo. Na prática, isso significa que o menor retorna rapidamente às ruas, muitas vezes para cometer o mesmo delito. O problema é que, para a vítima, o impacto está longe de ser “menor”. Perder uma moto é perder o emprego, a renda, o acesso à saúde e, em muitos casos, a estabilidade familiar.

Há um agravante que precisa ser dito: quem furta ou rouba a motocicleta de um trabalhador geralmente mora no mesmo bairro da vítima. São comunidades que convivem entre si, onde o motoboy roubado pode ser o mesmo que entrega comida, medicamentos ou presta ajuda a familiares do próprio infrator. O crime, nesse contexto, não atinge apenas um indivíduo, mas aprofunda o atraso social da comunidade inteira.

É inegável que o debate sobre leis mais rígidas precisa avançar. Mas também é urgente falar de responsabilidade. Muitos desses jovens não roubam por necessidade imediata, mas para sustentar uma rotina de ostentação em pancadões, consumo de drogas e álcool adulterado. Uma escolha que cobra um preço alto — não apenas da vítima, mas do próprio futuro desses menores.

A pergunta que fica é incômoda, mas necessária: até quando o trabalhador continuará sendo punido por cumprir a lei, enquanto a reincidência criminosa encontra abrigo na fragilidade do sistema? Quando o crime passa a ditar as regras, quem perde não é apenas quem teve a moto levada — é toda a sociedade.

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